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sábado, 12 de novembro de 2011





GLOSSÁRIO
DA
SABEDORIA E DO SENSO COMUM
SEGUNDO O JAGUNÇO RIOBALDO
TATARANA DISSERTOU EM 3 DIAS
E 3 NOITES PARA SEU OUVINTE
MISTERIOSO.

 DO AMOR
            MAS ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – e escuro, escuros
            O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.
            Amizade dada é amor.
            Ah! A flor do amor tem muitos nomes.
            Ah! Meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário.
            Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
O amor só mente para dizer maior verdade.

            DA CONFIANÇA
            Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.
            Acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam.

            DO CONSELHO
            Ah! Conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-dágua

            DA CONVIVÊNCIA
            A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é a regra do rei!
A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.
            Um sentir é do sentente, mas o outro é do sentidor.

            DO JAGUNÇO E DO HOMEM
            Riobaldo, homem, eu, sem pai, sem mãe, sem apego nenhum, sem pertencências.
            O jagunço Riobaldo. Fui eu. Fui e não fui. Não fui – porque não sou, não quero ser. Deus esteja.
            Sempre fui assim, descabido, desamarrado.
            Um homem, coisa fraca em si, macia mesmo, aos pulos de vida e morte, no meio das duras pedras.

            DEUS
            Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.
            Deus existe mesmo quando não há.
            Tudo tem seus mistérios.
            Deus é uma plantação
            Moço! Deus é paciência. O contrário é o diabo.
            Senhor sabe: Deus é definitivamente; o demo é o contrário dele.

            DA DOR
            A dor não pode mais do que a surpresa.

            DA VIDA E DA EXISTÊNCIA.
            Viver é negócio muito perigoso.
            Passarinho que se debruça – o vôo já está pronto.
            Tudo sobrevém.
            Viver é um descuido prosseguido
            O mal ou o bem, estão é em quem faz; não no efeito que dão.
            O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe.
            Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim?
            O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.
            Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ontem, amanhã é sempre.
            Esta vida é de cabeça – para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas.
            Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar.
            A gente – o que vida é – é para se envergonhar.
            Cansaço faz tristeza, em quem dela carece.
            O bom da vida é para o cavalo, que vê capim e come.
            Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda hora a gente está num compito.
            Todo caminho da gente é resvaloso.
            O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente e coragem.
            No estado de viver, as coisas vão enriquecidas com muita astúcia: um dia é todo esperança, o seguinte para a desconsolação.
            Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente.
            A vida é mutirão de todos.
            Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados, as pessoas também, nesta vida.
            A vida é um vago variado.
            A vida é muito discordada. Tem partes, tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem caras todas do Cão, e as vertentes do viver.
            Picapau voa é duvidando do ar.
            Sossego traz desejos.
            Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

            DA FELICIDADE
            Perto de muita água, tudo é feliz.

            DO HUMANO
            Homem? É coisa que treme.
            Jagunço não passa de ser homem muito provisório.
            Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza.
            Ser forte é parar quieto; permanecer.
            Existe é homem humano. Travessia.

            DA LEALDADE
            Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito.

            DA MOCIDADE
            Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.

            DO ÓDIO, DO AMOR
            O ódio – é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente.

            DO PARENTESCO
            Parente não é o escolhido – é o demarcado.
           
            DA POBREZA
            Pobre tem de ter um triste amor à honestidade.

            DO PODER
            De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo.
            A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes...
            Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.
            Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta.

            DO REAL
            Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
            Do que o que: o real roda e põe adiante.

            DO RISO
            Rir, antes da hora, engasga.

            DO SABER
            Sujeito muito lógico, o senhor sabe: cega qualquer nó.
            Quem desconfia, fica sábio.
            Pessoa limpa, pensa limpo. Eu acho.
            Mestre não é quem sempre ensina, mas quem – de repente – aprende.
            A gente só sabe bem aquilo que não entende.
            Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro.

            DO SERTÃO
            Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso.
            Sertão é onde o homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.
            Sertão é o sozinho
            Sertão é dentro da gente.
            Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo.
            Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor.
            O sertão é uma espera enorme.

            DA SAUDADE
            Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.

            DO SILÊNCIO
            Ficar calado é que é falar nos mortos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011


TIRÉSIAS


            Na ex-União Soviética, sob Brejnev, havia uma jovem professora universitária, especialista em literatura inglesa do período romântico.
            Esta jovem professora russa foi presa. Como sempre, nas ditaduras, foi presa sem processo, sem razão, apenas porque foi delatada por um serviçal de plantão. Ela sabia de cor os 30 mil versos do Don Juan de Byron.
            A cela que lhe coube era completamente escura, então, no meio daquela noite artificial, ela traduziu, mentalmente, para o russo, todo o poema.
            Tendo saído da prisão e ficado cega, pediu que uma amiga anotasse a tradução.
            É desse modo que o povo russo pode ler o grande texto de Byron.

A URGÊNCIA DAS COISAS

            Vou retomar uma anedota maravilhosa envolvendo o grande filósofo alemão, Hegel, segundo a narração de George Steiner.
Não se pode afirmar que fosse Hegel amigo dos judeus.Segundo o filósofo,o Todo-Poderoso apareceu e propôs a um judeu : “Eu te ofereço uma escolha; ou escolhes a salvação eterna ou o jornal da manhã.” E o judeu escolheu o jornal matutino.

ELEIÇÃO MUNICIPAL

Cabo Frio, pedaço do Paraíso
Por onde cruza errante
A sombra de Caim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PREZADO PÔNCIOS


Pilatos, intruso no credo
lavou as mãos de suas desculpas.

A história passou por ele
sem deixar traços nem culpas.

Talvez Pilatos soubesse
em sua imperial intimidade
que não valia a pena,
a pena de ignorar o Império:
ignorou um homem.

Pilatos ganhou a imortalidade
lavando as mãos com a singeleza
de quem prepara o corpo
para mais uma noite se insônia.

Mal sabia o romano
que escrevia no sono
o mais atroz pesadelo,
que ainda assombra
as noites de quem apenas lavou
                                     as mãos.

Mas não lavou a infâmia. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011


MUSAS ADJETIVAS
Anda aqui dentro
calado e fundo
um amor vagabundo.

Anda ou rasteja
não sei ao certo.
Se erra ou anda
é coisa incerta
porque são tortas as veredas...
(e não valem as vidas
estraçalhadas nos rastros
que deixam os amantes.)

Amantes que como dantes
procuram vagas beatrizes
imponderáveis helenas
improváveis penélopes...

É nos livros que elas vivem
adjetivas sem pudor,
jamais substantivas.

Todas estas mulheres existiam
de nunca chegar a serem
                   serenas sereias.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Praga

3ª parte
A experiência democrática e republicana é muito recente em Praga. São situações vividas ainda por duas gerações que convivem em termos antitéticos. A nova ordem, sob a liderança de escritor Vaclav Havel, arevolução de veludo, tem duas décadas apenas. O totalitarismo soviético deixou marcas profundas e dolorosas, principalmente, como é de se esperar, entre os mais velhos.
        A lógica da competição dos mercados assanhou os mais ousados e a sociedade repetiu o darwinismo clássico. Os mais lentos, os delicados, foram ficando à margem do consumo, embora não tenham perdido a cidadania, como acontece entre nós. Como são maioria, isto acabou se refletindo no crescimento do partido comunista nos índices eleitorais.
        Mas nós podemos avaliar, andando por aquelas ruas, o que significa parir um país.
        Educação e saúde não são mais universalmente gratuitas, mas financiadas pelo capital privado, com alguma proteção do Estado. A sociedade está ensaiando algo parecido com uma socialdemocracia como desdobramento do totalitarismo e da tutela do Estado sobre a sociedade. Trata-se de uma experiência interessante, porque os governos socialdemocratas, no ocidente onde existem, foram implementados num contexto de sociedade de mercado como resposta a uma democracia mais igualitária. Na República Tcheca não, a socialdemocracia se esforça por superar o Estado absoluto.
        Pelo movimento nas ruas, pelo número de grandes lojas de marcas, pela quantidade de consumidores e, sobretudo, pela frota de automóveis particulares, -- todas as marcas mundialmente conhecidas em modelos novos – a mudança parece satisfatória, pelo menos para os turistas.
        A miséria, como a conhecemos na América Latina, lá não parece existir. Existem programas soócias assistencialistas para os mais pobres sem que haja um programa de governo específico para isto.

        De todo modo, a transição do Estado protetor para uma sociedade livre agrada aos mais moços, a primeira geração do pós-comunismo.
        Mas onde a diferença se aprofunda é na memória das vítimas do comunismo, como encenam os monumentos a elas.
        Uma dor de 70 anos de horror não desaparece em uma geração; aliás, nunca desaparece, no máximo aprofunda-se em seu silêncio carregado de culpas.
        Praga é, sem dúvida, um monumento à humanização. Vale a pena exercer nossa solidariedade a um povo que não aparenta precisar dela, no entanto, quando percebemos sua solidão coletiva, sabemos quanto um povo necessita de encorajamento de outros povos.
        Uma visita à cidade nos revela um sentimento de dura materialidade e uma resignação quase fatalista frente a um destino que teima em permanecer kafkiano.
        Visite Praga, é uma experiência inesquecível.
        Ahoj.

domingo, 9 de outubro de 2011


Praga
Parte 2

            Praga não desenha um futuro como nós fazemos, seu passado é demasiado. Ainda não apareceu uma geração capaz de sonhar, enquanto isso não acontece, Praga continua sonhando com seus pesadelos. Ao contrário de nossa mitologia, eles não têm saudade do futuro.
            O cosmopolitismo da capital sustenta-se no esquecimento, a despeito dos inúmeros monumentos. Praga prefere silenciar sobre seus mortos, mesmo aqueles que morreram como heróis. É que eles perderam as referências quanto ao que significa um ato heróico.
            Grande parte das construções antigas tem porões que se integram á vida das casas. Nos hotéis e restaurantes, os porões são essenciais, talvez de secreta convivências, mas também são os espaços de vida e de sociabilidade perdidos para nós. Os porões não guardam a marco do reprimido, dos fantasmas da cãs, antes facilitam a vida, porque lá ficam os banheiros.
            Já disse que Praga é barroca, com todos os seus oxímoros, porém não no sentido tridentino do termo. Não é aquele barroco opressor, surgido da contrarreforma; na verdade, é um barroco sem a ferocidade do Tribunal do Santo Ofício. Reflete uma ambiência de alegria bachiana e ser permite certas heresias, como as que cometeram Ticho Brahe e Kepler.
            O ouro sobeja pelos altares, pelas naves, por todos os santos de todas as igrejas. Os mosteiros, de severa arquitetura, como convém, guardam riquezas literárias fascinantes, embora a religião não tenha a mesma força que tiveram entre os povos colonizados pela Ibéria.
            As dezenas de Palácios reverenciam a memória de uma grandeza perdida, porém testemunham a saga de um povo fragmentado, sempre olhando para o oriente de onde vinham as ameaças e o terror das invasões bárbaras.
            Um poema escrito em espanhol, do poeta cubano Ivan Gutierrez, imigrante e andarilho, expressa este sentimento de cidade fragmentada e enigmática.
           
                                   Hay um mensaje em el
                                   Susurro de esta urbe
                                   Que nunca puedo decifrar.

            Ardendo por agudos atalhos, numa cidade encoberta, compreendi a literatura de Kafka; compreendi seu recolhimento quase patológico, sua solidão. Sobretudo compreendi o estranho pedido que fez a Max Brod, seu amigo e escritor, na hora da morte: “ queime os manuscritos!”
            Max Brod não obedeceu e Praga sobreviveu em seus romances. Praga pôde ser, afinal, kafkiana. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Carlos Sepulveda retorna da Europa e com o 'Diário de Alexandria'



PRAGA. OUTONO
Parte 1

            O derradeiro baluarte do que uma vez se denominou, não sem alguma arrogância, Sacro Império Romano-germânico, Praga é sua referência histórica. São centenas de igrejas e castelos desfilando o desejo de cada Príncipe de se tornar eterno e líder de um Império.
            As vastas avenidas, ensolaradas neste final de setembro, já prenunciavam o fim do outono, começo do inverno. Milhares de turistas tardios, numa babel esfuziante, invadiram ruas, becos, praças, avenidas e bares, sempre cheios.
            A cidade é dividida pelo rio Vltava. De um lado, à margem direita, repousa a Cidade Velha; do outro, a “ pequena cidade”-- Mála Strána --  com seus imensos castelos, suas colinas, sua história dramática.
            A Boêmia é uma passagem estreita, um corredor geopolítico onde oriente e ocidente marcaram encontro, nem sempre amistoso. Ali, eclodiu a Guerra dos 30 anos, as perseguições aos protestantes, aos católicos, dependendo da inclinação do Príncipe em comando.
            Praga guarda o mistério kafkiano. Não à-toa, foi lá que nasceu e escreveu Franz Kafka, não por acaso seu mais contundente narrador, embora tenha escrito sua obra em alemão. O alemão da periferia, uma língua menor dentre tantas as que se praticam, ainda, na capital tcheca.
            A cidade resta em pé sob escombros imaginários de mágica beleza. É romântica em seus monumentos barrocos; rude em sua língua palatalizada, com vogais ásperas de sonoridade celta.
            Talvez esta mistura explique o fascínio que exerceu sobre Mozart.
            Há nas ruas, pelos sítios, pelas praças, por toda parte uma reverência ao horror da tragédia das guerras. Não por acaso a República Tcheca é parte da Transilvânia, lar do não tão doce conde Drácula...
            A sombra da morte percorre seus monumentos. Um deles, a Torre da Pólvora, é uma imensa coluna, com mais de 100 metros de altura, cinzenta, escura, onde se guardavam armamentos e, claro, a pólvora. È um símbolo da prontidão contra as invasões bárbaras. Está construída sobre um arco de pedras negras por onde passam os transeuntes. Sua aparência aterroriza com ferocidade qualquer invasor. Praga resistia a tudo e todos, com a fúria de seu pavor.
            A palavra PRAGA remonta ao radical “prag” que significa umbral, porta de entrada”.Sugere uma porta aberta para alguma passagem ou caminho. E este é o destino seu, sua arquitetura quer ser passagem para outras formas de civilização.
            Praga foi também a capital do suposto Sacro Império e, como tal, foi sede dos violentos conflitos religiosos, entre papistas e protestantes.
            Quando se caminha por suas largas avenidas e ensolaradas praças, é possível sentir o rastro de apreensão e medo. A cidade foi invadida várias vezes, sobretudo entre 1918 e 1968. Foi tomada pelo Exército Vermelho e se tornou Tcheslováquia, misturando etnias rivais, destinos opostos, ignorando, com violência, as identidades de centenas de povos, como os ciganos, que foram dizimados. Depois, em 1968, a “ Primavera de Praga” , sob a inspiração de Alexander Dubcek, comoveu o mundo livre. Hoje, após a ruína do Império Soviético, a República ainda não consegue viver com seus fantasmas.
            Praga é, provavelmente, a única cidade do mundo com um museu da tortura.