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sábado, 28 de janeiro de 2012


E POR FALAR EM SAUDADE!

            É uma palavrinha que nos enche de vaidade. Os brasileiros adoram dizer que só em nossa língua é possível dizer SAUDADE.
            Pode ser, afinal, brasileiro que se preza é especialista em tudo, por que não em filologia? Nem só de futebol vive o homem!
            Mas não se pode esquecer de que palavras expressam sentimentos, alma, verdades profundas da mente, por isso, dá vontade de escrever poeticamente.
            Então, vamos falar de saudade.
            É verdade, nossa língua, que segundo Manuel Bandeira não morrerá sem poetas nem soldados, dispõe desta expressão delicada como nenhuma outra. Aliás, no nosso português brasileiro, se diz SAU-DA-DE, assim mesmo, com três sílabas. Na língua de nosso avozinho – Portugal—se diz SA-U-DA-DE, com o hiato, ficando com quatro sílabas. Confesso que gosto mais do jeito lusitano, porque alonga a palavra, dando a sensação de lonjura, de distância, do mar de longo, como escreveu Caminha na sua carta. E saudade tem tudo a ver com mar, com viagem.
            Mas, como apareceu o sentimento que ela expressa?
            Foi lá com os gregos, depois da guerra de Tróia, a única Guerra do mundo por causa de um adultério. Você sabe, não é,leitor: aquela história de Helena que fugiu com um jovem muito bonito, chamado Paris, etc...Pra mim, faltou senso de humor, mas, de qualquer modo, deu na Ilíada, um poema fundamental de Homero. Quem podia imaginar que uma recatada senhora pulo o muro e vira personagem de uma civilização inteira!!!
            Pois é, tudo conversa. A guerra teve motivações mais profundas.
            Acontece, porém que, terminado o conflito de mais de dez anos, os vencedores, os gregos, tiveram de voltar para casa. Voltar, depois de tanto tempo, significou reencontrar o lar, os filhos, a pátria com outra cara, ou com outros caras. Ninguém é de ferro, só Penélope, por isso foram histórias marcantes. Um desses heróis, por exemplo, só voltou depois de vagar mais de dez anos no mar. Repare como os gregos gostavam do número dez!
            Ulisses, ou Odisseus, sofreu um bocado para retornar para os braços de sua Penélope, sua rainha amada.
            Bem, todas essas histórias se chamavam nostoi e relatavam as emoções e os sofrimentos do longo retorno. Como sofrimento e dor se exprimem na palavra algia, apareceu a palavra nostalgia que significa “melancolia produzida no exilado com saudades da pátria”( ta lá no Aurélio)
            Taí a origem da saudade: um sentimento de falta, de ausência, misturado com uma sensação de impotência para enfrentar os desafios, os obstáculos que impedem a volta.
            Em quase todas as línguas ocidentais, saudade está ligada a este sentimento de perda, de angústia, mas na nossa é mais profundo, porque podemos ter saudade até do que nunca vivemos, podemos ter saudade do futuro.
            É tão belo e profundo que não me furto a copiar algumas belíssimas definições para meus 12 ou 13 leitores terem o que fazer neste sábado.
            De Guimarães Rosa:
·        Moço, toda saudade é uma espécie de velhice
·        A saudade é um sonho insone
·        A saudade é o coração dando sombra
·        Saudade – um fogo enorme, um monte de gelo
·        Saudade – cofrinho sem chave.
·        Saudade é ser, depois de ter

            Do grande poeta português, Fernando Pessoa:
·        Todo cais é uma saudade de pedra

            Do orgulho de minha geração, minha favorita. De Chico Buarque de Holanda:
·        A saudade é o revés do parto/Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.

            E para homenagear o rude realismo de nosso povo, aqui vai a definição mais popular:
·        Saudade é coisa que dá e passa.

            E vocês, meus desocupados leitores, têm saudade de quê ou de quem?
Carlos Sepúlveda

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


PASSADO A LIMPO



Há muito, me livrei dessas tralhas.
O tempo destrói as migalhas
Que a esperança plantou em mim.
Nunca mais a vida disse sim.

De todas as impossíveis tramas,
De todos os majestosos dramas,
Restou somente esses versos ralos,
Lembranças de outros tempos diversos.

Aos poucos, o pensamento voga,
Sem rumo certo, sem norte, nada...
O que foi vida, próxima e clara,
Se faz distante quimera rara.

As árvores se desnudam em flores.
Na paisagem, desmaiam cores.
Quando primeva era a primavera,
Já suspeitava em mim esta fera

A roer, indecifravelmente,
Todas as marcas de um passado,
A deitar sementes de remorso.

A seiva se escoa, gotejante...

Carlos Sepúlveda

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

REFLEXÕES DE UM CRISTÃO FILÓSOFO

ROMANOS 7, 19-20
Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que estou agindo e sim o pecado que habita em mim.

            O que nos ensina o assombro de Paulo quando descobre que o mal pode falar mais alto a nossos corações?
            Sim, queremos o bem. Somos felizes quando praticamos a bondade, mas por que, muitas e muitas vezes, o mal prevalece?
            No fundo, achamos que o mal nunca é radical. Pensamos que o mal não possui densidade, nem consistência, enfim, não tem qualquer dimensão demoníaca. Afinal, nós somos modernos, vivemos o apogeu do progresso tecnológico. Nada há mais mistérios. Isso achamos nós, em nosso tempo confuso. Por que deveríamos evitar o mal?
            O mal pode destruir o mundo inteiro precisamente porque se espalha como fungo, na superfície de nossos atos. O mal é um enigma para o pensamento porque não se pode chegar às suas raízes, e quando tentamos entender, com propriedade, o que é o mal, ficamos frustrados, pois não há nada. O mal é assustador porque é banal.
            Mestre Eckhart, teólogo e pensador medieval, escreveu:  Se nunca fiz o mal, mas apenas tive vontade do mal, isto se trata de um pecado tão grande quanto matar todos os homens, embora eu não tenha feito nada.
            Paulo nos acena para uma outra pessoa dentro de nós. Um desconhecido que age para além de nosso querer. É este outro habitante de nós mesmos quem se abriga nas sombras de uma vida profunda. O Bem, por si mesmo, não é capaz de nos blindar dessa possessão demoníaca que acaba demoníaca que acaba prevalecendo em nossos atos e escolhas.
            É que, sendo banal, o mal se oferece gratuitamente em nossa vida, sem qualquer exigência, sem esforço, quase naturalmente.
            O Bem exige de nós um esforço incomum. Exige vigilância, atenção, renúncia, cuidado, tolerância, humildade, sentimentos que dependem da vontade do querer não-querer o Mal. O Bem é difícil e exigente. Viver é muito perigoso.
Irmãos, vive em nós, num território sombrio, a flor ácida do mal. Porém, é sempre possível colher as rosas do jardim sagrado que enfeita nossa alma, cujo jardineiro é um nazareno de nome Jesus.
Louvado seja O Senhor.

                                               CARLOS SEPÚLVEDA

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012


O RETORNO

            Os hierarcas de Alexandria, e foram muitos, em nome de Alá, obedecendo a um impulso cego e à vaidade do Imperador, decidiram reproduzir a experiência de um deus estrangeiro, cujo relato lhes ocorrera num lance do acaso. Em um dos milhares de pergaminhos, cuidadosamente preservados na Biblioteca, encontraram um exemplar do Livro do Gênesis no qual se relata a origem de certo Adão, moldado na úmida argila e que habitava um jardim magnífico. Fazia parte de um grande livro que seria traduzido por 70 sábios por ordem do Imperador. Estava, porém, escrito em uma língua bárbara.
            Dedicados à tarefa, seja por mera vaidade intelectual ou por devoção ao Imperador (Alá o guarde), recriaram o homem Adão que se assemelhava a um Golem, só que livre e independente.
            Ao longo dos meses, o homem Adão reproduzia, no sopro que recebera, as vicissitudes humanas. Conheceu a dor, a fome e a solidão, depois de ter como companheira uma mulher que ele também conheceu, mas no sentido erótico, sob a cumplicidade sombria de uma árvore incomum.
            Ao longo dos anos, os hierarcas acompanharam a longa jornada de Adão que se multiplicou em milhões de outros. E surgiram as cidades, os crimes, as bodas de sangue. E vieram os dilúvios, os sacrifícios, os arrependimentos e o perdão.
            Até que um de seus descendentes, movido pela profundidade da misericórdia, predicou a necessidade de restaurar outra humanidade, para o escândalo de muitos. Foi crucificado, morto e sepultado; ressuscitou no terceiro dia e no mesmo corpo. (assim narram os bárbaros infiéis).
            Os heresiarcas de Alexandria que só conheciam o tempo linear conviveram com um delicado mistério: o homem foi capaz de reconhecer o fim e o começo, como as duas faces da mesma moeda. Conheceram o segredo do Eterno Retorno, pois um deles retornou dos campos da morte para permanecer entre os outros homens, predicando a ressurreição.
            Os heresiarcas de Alexandria agora suspeitam que são imortais e que sua humanidade é circular e para sempre. E que não pode haver um destino trágico, porque o tempo se repete, infinitamente. Porque não existe passado ou futuro, tudo é agora.
            Resta, porém, uma aporia que foi inscrita nos pergaminhos do labirinto de Creta: então, o ressuscitado morrerá outra vez, para ser, de novo, ressuscitado? Ou será o único?
Carlos Sepúlveda

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


Submundo

Li, na minha longínqua infância, uma história em quadrinhos cujo enredo muito me impressionou. Tratava-se da história de um mundo subterrâneo que repetia, para meu espanto, o próprio mundo sobreterrâneo, numa espécie de platonismo invertido.
            Referia-se a um mundo por baixo da terra onde habitavam seres estranhos, constituintes de uma civilização esquecida, porém devotada à preservação de incorruptíveis valores. O mundo subterrâneo era composto de homens e mulheres devotados à poesia, à música, às artes, embora mantivesse um exército de excepcionais guerreiros cuja missão era a defesa da integridade e do segredo dos subterráqueos.
            A cidade debaixo da terra era formada de intermináveis labirintos e imensos salões onde sábios anciões reuniam-se para orientar o destino dos povos da superfície. A missão precípua dos subterráqueos era manter a humanidade longe de seu fim por meio das lições de sabedoria, da ética e da salvação.
            A humanidade visível dependia desta luta secreta entre a devota missão dos sub e a distraída resistência dos sobre.
            Embaixo, atravessando infinitos corredores, ora gotejantes e sombrios, ora claros e imaculados, os habitantes trabalhavam, educando e depurando a refinada população composta de milhares de seres humanos trajados de branco.
            Sempre que necessário, um dos subterráqueos subia à superfície para, como num sonho, orientar e interferir na vida dos humanos no mundo superior.
            Então, os conflitos, as misérias humanas e, principalmente, o princípio da preservação da nossa espécie deviam-se a estas oníricas intermitências. O mundo oculto, preservado nos subterrâneos, era responsável pela solitária grandeza do homem. Sua humanidade, desde sempre, era o resultado de uma luta secreta, de devoção a uma outra humanidade; essa, oculta sob os escombros da Terra.
            Enfim, encontrava-se nova razão para os sonhos: revelar o homem a si mesmo a partir de um franco sentimento de amor ao próximo.
            Apesar de um mundo tectônico, secreto, não revelado, era ele o responsável final por uma nova humanidade.
            Em meus delírios infantis (tinha talvez meus oito anos),  a aurora de minha vida, de que tenho saudades, era esta humanidade do submundo que existia, para tornar a vida possível.
            Neste mundo, eu era protagonista. Vestido de branco, com as mãos brancas, caminhando por nuvens brancas, eu trazia a mensagem branca da salvação...
            Depois, não sei mais que fim levou esta humanidade secreta, mas, de vez em quando, eu ainda acho que vivo enterrado na imensa claridade de luz mediterrânea de todas aquelas virtudes.
            Viver, muitas vezes vale a pena, porque a esperança habita o surpreendente ventre da terra. Mas quem se importa?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Impossível Natal

         Não quero escrever sobre quem é o natal. Disso já sabemos.

         Sabemos que é a comemoração do nascimento de um homem-deus, irrepetível. Como também sabemos que este caráter único nos fascina e nos embaraça, porque, se bem compreendida a criança nascida há 2011 anos, somente iguala-se a nós na dor, no sofrimento, físico e moral.

         Somos muito parecidos com ela, mas só quando somos menos homens.

         Pode ser que esteja na hora de se pensar sobre o que é o natal.

         O natal é um estilo de vida, uma páscoa moral, onde cada um de nós aceita ser a fonte milagrosa de onde jorra a água da vida, aceitando ser o outro do outro, cuja dádiva plena é a tolerância, isto é: suportamos do outro aquilo que não toleramos em nós mesmos.

         Natal é a lição mais profunda de humildade: o perdão. Mas não é a anistia compulsória dos males alheios, porém o braço amigo que ajuda a suportar o peso corporal dos erros cometidos e do arrependimento.

         O estilo de vida chamado natal não supõe o acúmulo de conforto e riqueza às custas da devastação. Refiro-me à natureza predatória do enriquecimento ilícito, fruto da malandragem, da esperteza e da má-consciência: da devastação das esperanças e dos afetos e do calor humano, deste ágape infinito com que nos reconciliamos com nossos irmãos necessitados de tudo.

         O impossível natal não se recolhe das ilusões perdidas, mas da infinita tristeza por não termos sido capazes de reconhecer o Menino-deus que habita em todos nós.

         É que o impossível natal é obra do despojamento, da recusa amável e compreensiva em apostar todas as fichas no poder de acumular, de se supor visível para Deus a partir dos bens obtidos na corrupção, no roubo, na esperteza, nas traições.

         O impossível natal se aninha em nosso espírito quando finalmente compreendemos a natureza doadora da maturidade. É quando descobrimos que somos verdadeiros quando o natal nos traz de volta o que perdemos na indiferença pelos destinos humanos, dos humilhados e ofendidos.

         Nenhum homem consegue pular sua própria sombra, mas nem por isso deixamos de tentar: como não deixamos de tentar fazer, da manhã seguinte, o início de todas as manhãs, já que o sol é sempre novo para quem crê.

         O impossível natal se torna possível quando descobrimos que Jesus é o nome daquilo que nascemos para ser, profundamente, verdadeiramente, quando merecermos. E quando tivermos coragem de Ser.

                                                                  FELIZ NATAL

terça-feira, 6 de dezembro de 2011




DESPEDIDA

Puseram os antigos o tempo numa ampulheta e disseram que era areia.
E lá ficou a areia desfiando-se em infinitas estrias, dentro do vidro.
Puseram os antigos a areia numa ampulheta e disseram que era tempo.
E á ficou o tempo a destruir a inocência das coisas.
Um dia, rompida a ampulheta
Os homens disseram que o tempo escoava, como fina areia
Por nossos dedos.

Então, um deles, que nunca deixou de ser menino,
Suspeitou impossível deter o tempo.
Decidiu inventar a memória, sutil musa inconsútil,
Vivendo da coragem de viver a plenitude do instante.

Foi assim que o Tempo virou memória.
E o menino encantado abriu o peito em luz
E predicou: enquanto eu não foi homem serei imortal.

Talvez por isso
Somente as crianças são imortais,
Porque acreditam que a imortalidade
É olhar para as coisas como se fosse a primeira vez
E que todas as cores do mundo não valem a sombra de um instante.

Contudo, há de chegar a hora de cuidar das flores.
Depois, acolher os frutos na concha vazia das mãos.
É sempre tempo de reinventar
o milagre das sementes.