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sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Praga

3ª parte
A experiência democrática e republicana é muito recente em Praga. São situações vividas ainda por duas gerações que convivem em termos antitéticos. A nova ordem, sob a liderança de escritor Vaclav Havel, arevolução de veludo, tem duas décadas apenas. O totalitarismo soviético deixou marcas profundas e dolorosas, principalmente, como é de se esperar, entre os mais velhos.
        A lógica da competição dos mercados assanhou os mais ousados e a sociedade repetiu o darwinismo clássico. Os mais lentos, os delicados, foram ficando à margem do consumo, embora não tenham perdido a cidadania, como acontece entre nós. Como são maioria, isto acabou se refletindo no crescimento do partido comunista nos índices eleitorais.
        Mas nós podemos avaliar, andando por aquelas ruas, o que significa parir um país.
        Educação e saúde não são mais universalmente gratuitas, mas financiadas pelo capital privado, com alguma proteção do Estado. A sociedade está ensaiando algo parecido com uma socialdemocracia como desdobramento do totalitarismo e da tutela do Estado sobre a sociedade. Trata-se de uma experiência interessante, porque os governos socialdemocratas, no ocidente onde existem, foram implementados num contexto de sociedade de mercado como resposta a uma democracia mais igualitária. Na República Tcheca não, a socialdemocracia se esforça por superar o Estado absoluto.
        Pelo movimento nas ruas, pelo número de grandes lojas de marcas, pela quantidade de consumidores e, sobretudo, pela frota de automóveis particulares, -- todas as marcas mundialmente conhecidas em modelos novos – a mudança parece satisfatória, pelo menos para os turistas.
        A miséria, como a conhecemos na América Latina, lá não parece existir. Existem programas soócias assistencialistas para os mais pobres sem que haja um programa de governo específico para isto.

        De todo modo, a transição do Estado protetor para uma sociedade livre agrada aos mais moços, a primeira geração do pós-comunismo.
        Mas onde a diferença se aprofunda é na memória das vítimas do comunismo, como encenam os monumentos a elas.
        Uma dor de 70 anos de horror não desaparece em uma geração; aliás, nunca desaparece, no máximo aprofunda-se em seu silêncio carregado de culpas.
        Praga é, sem dúvida, um monumento à humanização. Vale a pena exercer nossa solidariedade a um povo que não aparenta precisar dela, no entanto, quando percebemos sua solidão coletiva, sabemos quanto um povo necessita de encorajamento de outros povos.
        Uma visita à cidade nos revela um sentimento de dura materialidade e uma resignação quase fatalista frente a um destino que teima em permanecer kafkiano.
        Visite Praga, é uma experiência inesquecível.
        Ahoj.

domingo, 9 de outubro de 2011


Praga
Parte 2

            Praga não desenha um futuro como nós fazemos, seu passado é demasiado. Ainda não apareceu uma geração capaz de sonhar, enquanto isso não acontece, Praga continua sonhando com seus pesadelos. Ao contrário de nossa mitologia, eles não têm saudade do futuro.
            O cosmopolitismo da capital sustenta-se no esquecimento, a despeito dos inúmeros monumentos. Praga prefere silenciar sobre seus mortos, mesmo aqueles que morreram como heróis. É que eles perderam as referências quanto ao que significa um ato heróico.
            Grande parte das construções antigas tem porões que se integram á vida das casas. Nos hotéis e restaurantes, os porões são essenciais, talvez de secreta convivências, mas também são os espaços de vida e de sociabilidade perdidos para nós. Os porões não guardam a marco do reprimido, dos fantasmas da cãs, antes facilitam a vida, porque lá ficam os banheiros.
            Já disse que Praga é barroca, com todos os seus oxímoros, porém não no sentido tridentino do termo. Não é aquele barroco opressor, surgido da contrarreforma; na verdade, é um barroco sem a ferocidade do Tribunal do Santo Ofício. Reflete uma ambiência de alegria bachiana e ser permite certas heresias, como as que cometeram Ticho Brahe e Kepler.
            O ouro sobeja pelos altares, pelas naves, por todos os santos de todas as igrejas. Os mosteiros, de severa arquitetura, como convém, guardam riquezas literárias fascinantes, embora a religião não tenha a mesma força que tiveram entre os povos colonizados pela Ibéria.
            As dezenas de Palácios reverenciam a memória de uma grandeza perdida, porém testemunham a saga de um povo fragmentado, sempre olhando para o oriente de onde vinham as ameaças e o terror das invasões bárbaras.
            Um poema escrito em espanhol, do poeta cubano Ivan Gutierrez, imigrante e andarilho, expressa este sentimento de cidade fragmentada e enigmática.
           
                                   Hay um mensaje em el
                                   Susurro de esta urbe
                                   Que nunca puedo decifrar.

            Ardendo por agudos atalhos, numa cidade encoberta, compreendi a literatura de Kafka; compreendi seu recolhimento quase patológico, sua solidão. Sobretudo compreendi o estranho pedido que fez a Max Brod, seu amigo e escritor, na hora da morte: “ queime os manuscritos!”
            Max Brod não obedeceu e Praga sobreviveu em seus romances. Praga pôde ser, afinal, kafkiana. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Carlos Sepulveda retorna da Europa e com o 'Diário de Alexandria'



PRAGA. OUTONO
Parte 1

            O derradeiro baluarte do que uma vez se denominou, não sem alguma arrogância, Sacro Império Romano-germânico, Praga é sua referência histórica. São centenas de igrejas e castelos desfilando o desejo de cada Príncipe de se tornar eterno e líder de um Império.
            As vastas avenidas, ensolaradas neste final de setembro, já prenunciavam o fim do outono, começo do inverno. Milhares de turistas tardios, numa babel esfuziante, invadiram ruas, becos, praças, avenidas e bares, sempre cheios.
            A cidade é dividida pelo rio Vltava. De um lado, à margem direita, repousa a Cidade Velha; do outro, a “ pequena cidade”-- Mála Strána --  com seus imensos castelos, suas colinas, sua história dramática.
            A Boêmia é uma passagem estreita, um corredor geopolítico onde oriente e ocidente marcaram encontro, nem sempre amistoso. Ali, eclodiu a Guerra dos 30 anos, as perseguições aos protestantes, aos católicos, dependendo da inclinação do Príncipe em comando.
            Praga guarda o mistério kafkiano. Não à-toa, foi lá que nasceu e escreveu Franz Kafka, não por acaso seu mais contundente narrador, embora tenha escrito sua obra em alemão. O alemão da periferia, uma língua menor dentre tantas as que se praticam, ainda, na capital tcheca.
            A cidade resta em pé sob escombros imaginários de mágica beleza. É romântica em seus monumentos barrocos; rude em sua língua palatalizada, com vogais ásperas de sonoridade celta.
            Talvez esta mistura explique o fascínio que exerceu sobre Mozart.
            Há nas ruas, pelos sítios, pelas praças, por toda parte uma reverência ao horror da tragédia das guerras. Não por acaso a República Tcheca é parte da Transilvânia, lar do não tão doce conde Drácula...
            A sombra da morte percorre seus monumentos. Um deles, a Torre da Pólvora, é uma imensa coluna, com mais de 100 metros de altura, cinzenta, escura, onde se guardavam armamentos e, claro, a pólvora. È um símbolo da prontidão contra as invasões bárbaras. Está construída sobre um arco de pedras negras por onde passam os transeuntes. Sua aparência aterroriza com ferocidade qualquer invasor. Praga resistia a tudo e todos, com a fúria de seu pavor.
            A palavra PRAGA remonta ao radical “prag” que significa umbral, porta de entrada”.Sugere uma porta aberta para alguma passagem ou caminho. E este é o destino seu, sua arquitetura quer ser passagem para outras formas de civilização.
            Praga foi também a capital do suposto Sacro Império e, como tal, foi sede dos violentos conflitos religiosos, entre papistas e protestantes.
            Quando se caminha por suas largas avenidas e ensolaradas praças, é possível sentir o rastro de apreensão e medo. A cidade foi invadida várias vezes, sobretudo entre 1918 e 1968. Foi tomada pelo Exército Vermelho e se tornou Tcheslováquia, misturando etnias rivais, destinos opostos, ignorando, com violência, as identidades de centenas de povos, como os ciganos, que foram dizimados. Depois, em 1968, a “ Primavera de Praga” , sob a inspiração de Alexander Dubcek, comoveu o mundo livre. Hoje, após a ruína do Império Soviético, a República ainda não consegue viver com seus fantasmas.
            Praga é, provavelmente, a única cidade do mundo com um museu da tortura.

sábado, 17 de setembro de 2011


FLAUBERT

            A literatura pode ser um tipo de obsessão Aliás, creio que nós, os escritores, não exercemos nosso métier senão com alguma obsessão. Não é com inspiração apenas, nem com outra qualquer predicação transcendente ou metafísica.
            O caso Flaubert exemplifica uma espécie de obsessão, quase um transtorno. Ele buscava minuciosamente a mot juste, por isso era capaz de escrever e de reescrever a mesma página centenas de vezes até que encontrasse a forma ideal, a palavra exata.
            Seu trabalho exasperava. Abandonava-se à busca da perfeição estilística numa tarefa perfeitamente inútil, no solitário exercício de escrita e de reescrita, devotando, para isso, uma inútil vida inteira, várias horas por dia.
            Não por acaso, o livro de Sartre sobre Flaubert ( l’idiot de la famille) é mesmo uma “psicanálise”da inutilidade. Nem é preciso dizer que esta obsessão irritava, principalmente, seu pai que pretendia para ele a disciplinada carreira de banqueiro .
            Evidentemente, no universo utilitário da pequena burguesia francesa, em meados do século XIX, o autor de Madame Bovary não era considerado um padrão de comportamento, embora o resultado final tenha sido a imortalidade. E se, por ventura, a medida do sucesso seja o comum pecúnio, os livros de Flaubert venderam alguns milhões de francos.
            A excentricidade rendeu-lhe uma fortuna em qualquer sentido que se queira entender.
            No entanto, o exemplo de paixão pela escrita e o trabalho magnífico de descrição da pequena burguesia rural na França, além da invenção do ´bovarismo”, constituem um patrimônio incomensurável.
            A literatura de Flaubert abriu caminho para a autonomia do estilo e da renovação do romance. Sem ela, a grande riqueza da ficção em língua francesa não teria conhecido a grandeza de Proust, isto para dizer o mínimo.
            Fora o fato de que o destino infeliz de Emma Bovary foi traçado, não pelo cego destino, a dura marca dos deuses, mas pela hipocrisia e pequenez da sociedade empobrecida, no interior da França.
            O painel sociológico, sustentado por um domínio invulgar da língua, tornou Flaubert um gênio da ficção universal.
            Segundo Alain Finkelkraut, Flaubert acreditava na existência de um liame entre beleza e verdade, como os clássicos. Depois dele, toda grande literatura realista repousa sobre este estranho postulado.
            Conta-se que, no momento de sua morte, ele teria se lamentado de seu ofício. “Eu morro como um cão”—exasperou-se –.“ Esta puta da Bovary vai permanecer para sempre”.

NOTA – O colunista vai ausentar-se pelas próximas duas semanas quando estará em vilegiatura, em Paris e Praga. Os leitores eventuais poderão desfrutar da ausência, mas eu os ameaço com o retorno.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011


Recado para Clara


Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de Andrade


Distantes tempos aqueles dissonantes
de cavaleiro sem balaclava
somente o rosto criança, de Clara.

Clara que na clara manhã
festejava o verde do céu no gramado
e colecionava asas de borboleta
entre os dedos bordados da manhã.

E aurora havia na clara manhã
de Clara, em sua leveza de menina.
Eram todas as cores
inclusive o arco-íris de onde colhiam horrores.
Hoje, nos novos tempos sem flores,
a inocência explodiu sob as asas do avião,
naquela manhà em que duas torres
esfacelaram todas as manhãs.

                                                                       11/09/2011

segunda-feira, 5 de setembro de 2011


ELEGIA, QUASE CANÇÃO


Pássaro azul
Que notícia me trazes
da dona de meu querer?
Em que secreto céu ela se esconde?
Por que caminhos é seu lugar onde?

Pelas desencantadas praças,
pelas desertas ruas e avenidas
vejo sua sombra esmaecida.

E mesmo agora
um espectro de congeladas mãos
me acolhe a testa,
acaricia-me os olhos





e me conduz pela mão até longe,
para além do mim de mim...

A dona de meu querer
é como o tempo da rosa:
de precária floração
mas infinita memória.  

sexta-feira, 2 de setembro de 2011



O SONHO DE LIN YUN TANG


            Na ampla sala, no vastíssimo palácio imperial, Lin Yun Tang, o decano dos alquimistas, exultava com alegria. Exultar talvez seja uma palavra excessiva, mas os leitores hão de compreender, e talvez perdoar, o exagero de um narrador latino, admirador confesso dos barrocos. Na verdade, o rosto oriental registrava apenas leves traços de alguma coisa próxima da felicidade.

           
 É que, naquela manhã ocasional, o velho alquimista poderia anunciar ao Soberano Imperador, Luz do Mundo, sua definitiva invenção: o pó da vida eterna.
            Não se podem descartar, é claro, os vestígios do acaso, a despeito de tantos anos de busca apaixonada, dos inumeráveis fracassos na pesquisa paciente do prodígio.
            De muitos modos, o alquimista conseguiu decifrar as tentativas levadas a efeito nas cortes onde o sol desfalecia. Inúmeras vezes, repetiu à exaustão as experiências de um certo Nostradamus que parecia ser diferente dos bárbaros ocidentais. Quase se poderia dizer que era como um sábio do Império do Meio, tão profundamente penetrara nos mistérios do universo.
             Em posse de algumas fórmulas secretas, obtidas após metódica tortura de um jesuíta incauto, pôde ele chegar a algumas amostras do pó da imortalidade ou da juventude.
            Mas a amargura do insucesso ainda o inquietava, mais e muito, quando imaginava terminar seus contados dias sem apresentar ao Imperador, Luz do Mundo, sua obra máxima.
          
  Certa madrugada, após mais uma metódica tentativa, o grande sábio adormeceu, sem se dar conta de que deixara uma intrusa fresta na janela meio aberta, por onde atravessou insidioso raio de luz , logo que se abriu o leque da manhã.
            O discreto feixe de luz percorreu a pequena distância entre a fímbria da janela e o pequeno pote onde repousava o pó esbranquiçado, restos de outra fracassada tentativa.
            A pequena chama solar acendeu o fogo do pote; o pó se queimou e os restos, enegrecidos, permaneceram no mesmo lugar. Quando Lin Yun Tang despertou do agitado sono, espantou-se como os restos de um pó vítreo, de cor negra, cujas propriedades desconhecia.
            Tomado de incontrolável mas discreta euforia, o alquimista tomou uma porção do pó negro, dissolveu-o em água recolhida do céu, armazenada fora do contato humano, e transformou-o em líquido espesso, escuro. Em seguida, ministrou-o, em gotas, a um rato que lhe servia de cobaia.
            Na manhã de que trata este relato, Lin Yun Tang comprovou sua feliz hipótese: o rato rejuvenescera, estava mais vigoroso, a vida parecia deixar nele a seiva da imortalidade.

            Quando o sábio se encontrou com o Imperador, deu-lhe notícias do que houvera descoberto e que poderia ser o pó da Eterna Juventude. No entanto, necessitava de mais tempo para certificar-se. O Imperador, Luz do Mundo, Alteza Sereníssima, anunciou que se deveria experimentar em humanos, mais precisamente, em prisioneiros, imediatamente.
            Durante duas semanas, o alquimista administrou, cuidadosamente, uma infusão do pó negro, diluído em água pura, recolhida do céu, sem o toque de mãos humanas. Desgraçadamente, porém, ao contrário dos ratos, os homens morriam, após dores dilacerantes que os faziam contorcerem-se até o desesperado fim. Os corpos enegreciam, crispados em medonhas formas, enquanto os olhos explodiam nas órbitas, contemplando a morte que vinha acompanhada de odor nauseante.

           
 O venerando sábio, antevendo a ira do Imperador, resolveu dar fim ao invento, ateando fogo em todos os potes. Porém, ao espargir o conteúdo sobre as chamas de um forno, o produto explodiu, poderosamente, cegando-o para sempre.
            Recolhido em seu desespero, Lin Yun Tang morreu sobre a madrugada.
            A ironia vai por conta do fato de que o pó negro não chancelou a imortalidade, como desejara, mas a própria máquina de matar. Lin Yun Tang havia descoberto a pólvora.