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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PREZADO PÔNCIOS


Pilatos, intruso no credo
lavou as mãos de suas desculpas.

A história passou por ele
sem deixar traços nem culpas.

Talvez Pilatos soubesse
em sua imperial intimidade
que não valia a pena,
a pena de ignorar o Império:
ignorou um homem.

Pilatos ganhou a imortalidade
lavando as mãos com a singeleza
de quem prepara o corpo
para mais uma noite se insônia.

Mal sabia o romano
que escrevia no sono
o mais atroz pesadelo,
que ainda assombra
as noites de quem apenas lavou
                                     as mãos.

Mas não lavou a infâmia. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011


MUSAS ADJETIVAS
Anda aqui dentro
calado e fundo
um amor vagabundo.

Anda ou rasteja
não sei ao certo.
Se erra ou anda
é coisa incerta
porque são tortas as veredas...
(e não valem as vidas
estraçalhadas nos rastros
que deixam os amantes.)

Amantes que como dantes
procuram vagas beatrizes
imponderáveis helenas
improváveis penélopes...

É nos livros que elas vivem
adjetivas sem pudor,
jamais substantivas.

Todas estas mulheres existiam
de nunca chegar a serem
                   serenas sereias.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Praga

3ª parte
A experiência democrática e republicana é muito recente em Praga. São situações vividas ainda por duas gerações que convivem em termos antitéticos. A nova ordem, sob a liderança de escritor Vaclav Havel, arevolução de veludo, tem duas décadas apenas. O totalitarismo soviético deixou marcas profundas e dolorosas, principalmente, como é de se esperar, entre os mais velhos.
        A lógica da competição dos mercados assanhou os mais ousados e a sociedade repetiu o darwinismo clássico. Os mais lentos, os delicados, foram ficando à margem do consumo, embora não tenham perdido a cidadania, como acontece entre nós. Como são maioria, isto acabou se refletindo no crescimento do partido comunista nos índices eleitorais.
        Mas nós podemos avaliar, andando por aquelas ruas, o que significa parir um país.
        Educação e saúde não são mais universalmente gratuitas, mas financiadas pelo capital privado, com alguma proteção do Estado. A sociedade está ensaiando algo parecido com uma socialdemocracia como desdobramento do totalitarismo e da tutela do Estado sobre a sociedade. Trata-se de uma experiência interessante, porque os governos socialdemocratas, no ocidente onde existem, foram implementados num contexto de sociedade de mercado como resposta a uma democracia mais igualitária. Na República Tcheca não, a socialdemocracia se esforça por superar o Estado absoluto.
        Pelo movimento nas ruas, pelo número de grandes lojas de marcas, pela quantidade de consumidores e, sobretudo, pela frota de automóveis particulares, -- todas as marcas mundialmente conhecidas em modelos novos – a mudança parece satisfatória, pelo menos para os turistas.
        A miséria, como a conhecemos na América Latina, lá não parece existir. Existem programas soócias assistencialistas para os mais pobres sem que haja um programa de governo específico para isto.

        De todo modo, a transição do Estado protetor para uma sociedade livre agrada aos mais moços, a primeira geração do pós-comunismo.
        Mas onde a diferença se aprofunda é na memória das vítimas do comunismo, como encenam os monumentos a elas.
        Uma dor de 70 anos de horror não desaparece em uma geração; aliás, nunca desaparece, no máximo aprofunda-se em seu silêncio carregado de culpas.
        Praga é, sem dúvida, um monumento à humanização. Vale a pena exercer nossa solidariedade a um povo que não aparenta precisar dela, no entanto, quando percebemos sua solidão coletiva, sabemos quanto um povo necessita de encorajamento de outros povos.
        Uma visita à cidade nos revela um sentimento de dura materialidade e uma resignação quase fatalista frente a um destino que teima em permanecer kafkiano.
        Visite Praga, é uma experiência inesquecível.
        Ahoj.

domingo, 9 de outubro de 2011


Praga
Parte 2

            Praga não desenha um futuro como nós fazemos, seu passado é demasiado. Ainda não apareceu uma geração capaz de sonhar, enquanto isso não acontece, Praga continua sonhando com seus pesadelos. Ao contrário de nossa mitologia, eles não têm saudade do futuro.
            O cosmopolitismo da capital sustenta-se no esquecimento, a despeito dos inúmeros monumentos. Praga prefere silenciar sobre seus mortos, mesmo aqueles que morreram como heróis. É que eles perderam as referências quanto ao que significa um ato heróico.
            Grande parte das construções antigas tem porões que se integram á vida das casas. Nos hotéis e restaurantes, os porões são essenciais, talvez de secreta convivências, mas também são os espaços de vida e de sociabilidade perdidos para nós. Os porões não guardam a marco do reprimido, dos fantasmas da cãs, antes facilitam a vida, porque lá ficam os banheiros.
            Já disse que Praga é barroca, com todos os seus oxímoros, porém não no sentido tridentino do termo. Não é aquele barroco opressor, surgido da contrarreforma; na verdade, é um barroco sem a ferocidade do Tribunal do Santo Ofício. Reflete uma ambiência de alegria bachiana e ser permite certas heresias, como as que cometeram Ticho Brahe e Kepler.
            O ouro sobeja pelos altares, pelas naves, por todos os santos de todas as igrejas. Os mosteiros, de severa arquitetura, como convém, guardam riquezas literárias fascinantes, embora a religião não tenha a mesma força que tiveram entre os povos colonizados pela Ibéria.
            As dezenas de Palácios reverenciam a memória de uma grandeza perdida, porém testemunham a saga de um povo fragmentado, sempre olhando para o oriente de onde vinham as ameaças e o terror das invasões bárbaras.
            Um poema escrito em espanhol, do poeta cubano Ivan Gutierrez, imigrante e andarilho, expressa este sentimento de cidade fragmentada e enigmática.
           
                                   Hay um mensaje em el
                                   Susurro de esta urbe
                                   Que nunca puedo decifrar.

            Ardendo por agudos atalhos, numa cidade encoberta, compreendi a literatura de Kafka; compreendi seu recolhimento quase patológico, sua solidão. Sobretudo compreendi o estranho pedido que fez a Max Brod, seu amigo e escritor, na hora da morte: “ queime os manuscritos!”
            Max Brod não obedeceu e Praga sobreviveu em seus romances. Praga pôde ser, afinal, kafkiana. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Carlos Sepulveda retorna da Europa e com o 'Diário de Alexandria'



PRAGA. OUTONO
Parte 1

            O derradeiro baluarte do que uma vez se denominou, não sem alguma arrogância, Sacro Império Romano-germânico, Praga é sua referência histórica. São centenas de igrejas e castelos desfilando o desejo de cada Príncipe de se tornar eterno e líder de um Império.
            As vastas avenidas, ensolaradas neste final de setembro, já prenunciavam o fim do outono, começo do inverno. Milhares de turistas tardios, numa babel esfuziante, invadiram ruas, becos, praças, avenidas e bares, sempre cheios.
            A cidade é dividida pelo rio Vltava. De um lado, à margem direita, repousa a Cidade Velha; do outro, a “ pequena cidade”-- Mála Strána --  com seus imensos castelos, suas colinas, sua história dramática.
            A Boêmia é uma passagem estreita, um corredor geopolítico onde oriente e ocidente marcaram encontro, nem sempre amistoso. Ali, eclodiu a Guerra dos 30 anos, as perseguições aos protestantes, aos católicos, dependendo da inclinação do Príncipe em comando.
            Praga guarda o mistério kafkiano. Não à-toa, foi lá que nasceu e escreveu Franz Kafka, não por acaso seu mais contundente narrador, embora tenha escrito sua obra em alemão. O alemão da periferia, uma língua menor dentre tantas as que se praticam, ainda, na capital tcheca.
            A cidade resta em pé sob escombros imaginários de mágica beleza. É romântica em seus monumentos barrocos; rude em sua língua palatalizada, com vogais ásperas de sonoridade celta.
            Talvez esta mistura explique o fascínio que exerceu sobre Mozart.
            Há nas ruas, pelos sítios, pelas praças, por toda parte uma reverência ao horror da tragédia das guerras. Não por acaso a República Tcheca é parte da Transilvânia, lar do não tão doce conde Drácula...
            A sombra da morte percorre seus monumentos. Um deles, a Torre da Pólvora, é uma imensa coluna, com mais de 100 metros de altura, cinzenta, escura, onde se guardavam armamentos e, claro, a pólvora. È um símbolo da prontidão contra as invasões bárbaras. Está construída sobre um arco de pedras negras por onde passam os transeuntes. Sua aparência aterroriza com ferocidade qualquer invasor. Praga resistia a tudo e todos, com a fúria de seu pavor.
            A palavra PRAGA remonta ao radical “prag” que significa umbral, porta de entrada”.Sugere uma porta aberta para alguma passagem ou caminho. E este é o destino seu, sua arquitetura quer ser passagem para outras formas de civilização.
            Praga foi também a capital do suposto Sacro Império e, como tal, foi sede dos violentos conflitos religiosos, entre papistas e protestantes.
            Quando se caminha por suas largas avenidas e ensolaradas praças, é possível sentir o rastro de apreensão e medo. A cidade foi invadida várias vezes, sobretudo entre 1918 e 1968. Foi tomada pelo Exército Vermelho e se tornou Tcheslováquia, misturando etnias rivais, destinos opostos, ignorando, com violência, as identidades de centenas de povos, como os ciganos, que foram dizimados. Depois, em 1968, a “ Primavera de Praga” , sob a inspiração de Alexander Dubcek, comoveu o mundo livre. Hoje, após a ruína do Império Soviético, a República ainda não consegue viver com seus fantasmas.
            Praga é, provavelmente, a única cidade do mundo com um museu da tortura.

sábado, 17 de setembro de 2011


FLAUBERT

            A literatura pode ser um tipo de obsessão Aliás, creio que nós, os escritores, não exercemos nosso métier senão com alguma obsessão. Não é com inspiração apenas, nem com outra qualquer predicação transcendente ou metafísica.
            O caso Flaubert exemplifica uma espécie de obsessão, quase um transtorno. Ele buscava minuciosamente a mot juste, por isso era capaz de escrever e de reescrever a mesma página centenas de vezes até que encontrasse a forma ideal, a palavra exata.
            Seu trabalho exasperava. Abandonava-se à busca da perfeição estilística numa tarefa perfeitamente inútil, no solitário exercício de escrita e de reescrita, devotando, para isso, uma inútil vida inteira, várias horas por dia.
            Não por acaso, o livro de Sartre sobre Flaubert ( l’idiot de la famille) é mesmo uma “psicanálise”da inutilidade. Nem é preciso dizer que esta obsessão irritava, principalmente, seu pai que pretendia para ele a disciplinada carreira de banqueiro .
            Evidentemente, no universo utilitário da pequena burguesia francesa, em meados do século XIX, o autor de Madame Bovary não era considerado um padrão de comportamento, embora o resultado final tenha sido a imortalidade. E se, por ventura, a medida do sucesso seja o comum pecúnio, os livros de Flaubert venderam alguns milhões de francos.
            A excentricidade rendeu-lhe uma fortuna em qualquer sentido que se queira entender.
            No entanto, o exemplo de paixão pela escrita e o trabalho magnífico de descrição da pequena burguesia rural na França, além da invenção do ´bovarismo”, constituem um patrimônio incomensurável.
            A literatura de Flaubert abriu caminho para a autonomia do estilo e da renovação do romance. Sem ela, a grande riqueza da ficção em língua francesa não teria conhecido a grandeza de Proust, isto para dizer o mínimo.
            Fora o fato de que o destino infeliz de Emma Bovary foi traçado, não pelo cego destino, a dura marca dos deuses, mas pela hipocrisia e pequenez da sociedade empobrecida, no interior da França.
            O painel sociológico, sustentado por um domínio invulgar da língua, tornou Flaubert um gênio da ficção universal.
            Segundo Alain Finkelkraut, Flaubert acreditava na existência de um liame entre beleza e verdade, como os clássicos. Depois dele, toda grande literatura realista repousa sobre este estranho postulado.
            Conta-se que, no momento de sua morte, ele teria se lamentado de seu ofício. “Eu morro como um cão”—exasperou-se –.“ Esta puta da Bovary vai permanecer para sempre”.

NOTA – O colunista vai ausentar-se pelas próximas duas semanas quando estará em vilegiatura, em Paris e Praga. Os leitores eventuais poderão desfrutar da ausência, mas eu os ameaço com o retorno.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011


Recado para Clara


Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de Andrade


Distantes tempos aqueles dissonantes
de cavaleiro sem balaclava
somente o rosto criança, de Clara.

Clara que na clara manhã
festejava o verde do céu no gramado
e colecionava asas de borboleta
entre os dedos bordados da manhã.

E aurora havia na clara manhã
de Clara, em sua leveza de menina.
Eram todas as cores
inclusive o arco-íris de onde colhiam horrores.
Hoje, nos novos tempos sem flores,
a inocência explodiu sob as asas do avião,
naquela manhà em que duas torres
esfacelaram todas as manhãs.

                                                                       11/09/2011