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quarta-feira, 18 de abril de 2012



PERDÃO

Antes da flor, resta o botão.
O dia se recolhe nas trevas da noite.
Cada lágrima esconde uma promessa.
Um anjo suspeita
de que, nos olhos do Senhor,
uma lágrima pode virar dilúvio.

Tudo está na ordem do ser:
em cada semente se recolhe o fruto,
como antes da morte existe o luto,
como antes do nada existe o tudo.

Os pés que recolhem o pó do chão
já prenunciam as dores do caminho,
como um distraído olhar
já pressupõe o impossível carinho.

Assim, o prumo se imprime
em cada vida que sucede,
porque tudo está escrito
às folhas tantas do destino.

O exercício inútil do perdão
é apenas um confuso parágrafo
para quem a vida não passa
de arrependimento e paixão.

Perdão é o nome que se dá
quando dividimos com os outros
o pão da intimidade.

Mas quando a estrada finda
e o caminho termina
e ficamos sozinhos,
sabemos que perdão
é também o nome que se dá
à nossa desaforada vaidade do não.

terça-feira, 3 de abril de 2012


Teixeira e Souza, um intruso no mundo das letras

            Neste nosso encontro em torno da obra do cabo-friense ANTONIO GONÇALVES TEIXEIRA E SOUZA (1812-1861), pretendo reafirmar a importância de sua presença literária e, ao mesmo tempo, registrar o conflito de interpretações que a fortuna crítica de sua literatura engendra, ainda hoje, e está longe de ser pacificada, sobretudo porque ainda não dispomos de um corpus confiável de suas obras.
            Salvo melhor juízo, ainda nos confrontamos com duas correntes interpretativas em torno de seus escritos, que ora se contrapõem, ora buscam algum tipo de conciliação, ou de superação, sem, entretanto, alcançar consenso, pelo menos até agora.
            Curiosamente, se Teixeira e Souza não houvesse escrito e publicado o primeiro romance brasileiro,em 1843, é provável que estas questões sequer fossem evocadas. Ou se os historiadores da literatura e os críticos confirmassem Joaquim Manuel de Macedo como autor do primeiro romance publicado em nossa terra, as divergências seriam de outra ordem. Mas, como Ser é Evento, aquele fato imprimiu ao cabo-friense um destino que ele sequer imaginou e que sua origem de classe e situação histórica não favoreciam. Por ironia do acaso, ele ficou na história por causa do calendário.
            De modo esquemático, à feição deste momento, existem duas correntes.
            Na chave das interpretações rigorosamente estéticas e autotélicas, interpretações que enfatizam a qualidade literária dos textos e que buscam uma avaliação da literariedade de suas produções, sem levar em consideração o relativismo dos contextos, a tendência é a de julgar suas obras sob o crivo pouco meritório de subliteratura, literatura trivial, baixa literatura, folhetim, etc...
            Claro que estamos a tratar de uma “ crítica do gosto” cujo julgamento depende de uma carga considerável de subjetividade. Mas, é bom não esquecer, a subjetividade é desse mundo e, portanto, deve ser levada em conta, mas com os devidos limites metodológicos.
            É, por exemplo, o juízo que se lhe atribui o insuspeito Alceu de Amoroso Lima, no seu Quadro sintético da Literatura Brasileira, de 1959, quando escreve:

Depois de uma estreia de qualidade muito inferior, com Teixeira e Souza( 1812-1861) e seus romances enfáticos e vazios, manifestou-se um romancista, Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) que é considerado o fundador do romance brasileiro. ( p41)


Esta apreciação, considerando os valores da modernidade mais próxima, merece um certo relativismo. A oposição entre dois escritores com condições de produção tão diferentes, para não dizer, antagônicas, mereceria ser levada em conta, num estudo mais acurado, embora não fosse esta a tendência da época em que escreveu.
Já Antonio Cândido, em sua monumental Formação da literatura brasileira,de 1957, aponta, pioneiramente, a dicotomia acima referida. Diz o autor:

No entanto, embora a qualidade literária seja realmente de terceira plana, é considerável a sua importância histórica, menos por lhe caber até nova ordem a prioridade na cronologia do nosso romance ( não da nossa ficção), do que por representar no Brasil, maciçamente, o aspecto que se convencionou chamar folhetinesco do Romantismo. Ele o representa, com efeito, em todos os traços de forma e conteúdo, em todos os processos e convicções, nos cacoetes, ridículos, virtudes ( p126-127)


Embora reconheça o pioneirismo histórico de Teixeira e Souza, o grande mestre paulista confirma, porém, sua avaliação na chave da apreciação estética quando diz, a respeito de A providência: é o triunfo da subliteratura, com tanta generosa abundância que nos prende a atenção e quase impõe respeito (127).
Chamo atenção para a frase final em que o autor vacila com um quase, provavelmente porque percebeu a possibilidade de outras considerações sobre Teixeira e Souza, em estudos futuros. É justamente este quase que nos anima a fazer estas reflexões.

            Já na linha interpretativa aberta ao relativismo, incorporando elementos extraliterários e historicistas, como, por exemplo, a questão da estrutura comunicativa do romance-folhetim, a formação do público-ledor, a gênese da vocação do autor, seu lugar social, a razão frágil do lugar do crítico, os juízos são menos dogmáticos, como acontece no livro De Anchieta a Euclides de José Guilherme Merquior, de 1977, o juízo da vez pôde ser de outra lavra.
            Diz Merquior a páginas 63
O introdutor do folhetim entre nós foi Justiniano da Rocha, que já encontramos como ensaísta na Sociedade Filomática; mas o primeiro romance brasileiro é o Filho do pescador de Antonio Gonçalves Teixeira e Souza. Mulato, filho de um humilde português de Cabo Frio, carpinteiro, tipógrafo e mestre-escola, ele é o “primo-pobre” de nosso primeiro grupo romântico, discretamente esnobado pelos confrades.


            Como se pode perceber, há certo esforço republicano, por parte do crítico, em desvincular classe social de destino individual, bem como de incorporar, ao discurso crítico, elementos da cultura de massa. A referência a “primo-pobre” só pode ser decodificada quando remetida ao programa radiofônico e humorístico, balança mas não cai, em que dois primos, um rico e outro miserável, confrontam seus modos de vida numa versão cômica da luta de classes que ele aplicou, com humor, ao caso em tela. É como se fizesse parte da literariedade, também, a função emancipatória dos sujeitos, na perspectiva de que a literatura se configura,também, como um bem social, portanto, disponível a todos. A enumeração advinda da divisão de trabalho – carpinteiro, tipógrafo, mestre-escola – descreve uma ascensão social pavimentada pelo mundo das letras, minimizando os aspectos meramente estilísticos e literários de sua obra. Creio que é a primeira vez que um crítico da estatura de Merquior relativiza o julgamento meramente técnico do estilo do autor em prol de uma análise das circunstâncias.
            É ainda Antonio Cândido quem a ele se refere, resumindo as agruras do autor como o seu permanente caiporismo.
            Surpreende também que o termo mulato, até então raramente atribuído a escritores, como Machado de Assis por exemplo, ou a intelectuais bem postados na sociedade, apareça. Quando esta denúncia, ou melhor: inconfidência, ocorria, as reações eram instantâneas ( todos conhecemos a reação de Joaquim Nabuco ao atributo mulato genial conferido a Machado de Assis, em conhecida anedota). Mas estamos falando de um jovem crítico brilhante dos anos 1970, quando o preconceito à mera referência étnica começa a diluir-se e a valorização da mestiçagem, iniciada nos anos 1930, passa a fazer parte dos discursos correntes, em nome de um processo de integração das minorias que, hoje, é aceito com vigor em nossa sociedade. O fundo discriminatório cede lugar a uma modernidade aberta à convivência com as diferenças e, nesse caso, Teixeira e Souza é um exemplo oportuno e pode ser lido na chave dessa recente tolerância.
            Felizmente, no quadro das peripécias da modernidade, muitas gerações depois daqueles anos do século XIX, um homem negro preside o país mais poderoso do mundo e um filho pobre do Brasil nos presidiu, até recentemente, e, segundo é consenso, com eficiência.
            Voltemos, porém, às questões até agora suscitadas.
            A anotação que Kafka deixou em seu Diário, datada de 25 de dezembro de 1911, parece pertinente para se entender o fundamento destes novos juízos acerca da literatura em face dos avanços da modernidade em sua abertura para a diferença.
            Escreveu o autor de América que a literatura tem menos a ver com a história literária do que com o povo.
            Eis um emblema da diferença entre a apreciação do gosto e a relativização provocada pelas circunstâncias, como assim chamava Ortega y Gasset. A literatura, não devemos nos esquecer, é, também, um autroapresentação do povo, é onde ele se espelha e é espelhado, é onde as identidades são celebradas, é onde nos consolamos daquilo que devíamos ser e não somos. E se a literatura fala do que nos falta, nós também somos o que nos falta, com apontou, com a aguda sutileza de sempre, o eminente professor Eduardo Portella. A literatura tem um encontro marcado com as identidades culturais e determina, de certa maneira, o destino dos povos.
            Assim, embora se possa perceber hoje uma tendência à conciliação das duas correntes, ainda não dispomos de um estudo conclusivo que deva realizar esta síntese.
            Pessoalmente, faço votos de que nos próximos anos, depois de a cidade de Cabo Frio e sua Academia tiverem comemorado o bicentenário de nascimento de Teixeira e Souza, teremos novas interpretações e abordagens, quem sabe pacificando as divergências?.
            Como escreveu Borges: meu coração se alegra com esta elegante esperança.
            Passo a considerar, agora, algumas achegas que poderão revelar as dificuldades da tarefa.
            Salvo engano, creio que foi Ezra Pound quem predicou a regra de que os escritores podem ser divididos em dois grupos: os que escrevem para leitores que já existem e os que fundam seus leitores. No primeiro caso, estão os talentosos; no segundo, os geniais, acrescento eu.
            Tem sua graça, sem dúvida, mas, como em qualquer animus classificandi, peca-se pela simplificação, até porque o pecado dos binarismos confortáveis é que eles escondem mais do que revelam. Como uma vez expressou Nietzsche: desconfio de todos os sistematizadores e fujo deles. A vontade de sistematizar é uma falta de integridade Portanto, peço vênia à inteligência e sensibilidade dos ouvintes para pensar o contrário do poeta e filósofo e adotar, pelo menos provisoriamente, a dicotomia preguiçosa do crítico norteamericano.
            Claro, existem escritores prudentes, basicamente escravos do senso-comum, pautados pelo sucesso de suas empreitadas e que significa, tout court, serem lidos. A profissão designada recentemente como escritor, vivendo na economia de mercado, produzindo um bem cultural, supõe-se bem vinda quando oferece condições de retorno financeiro para que o escritor-profissional possa dela retirar seu sustento e construir seu patrimônio tangível ou intangível. A literatura vira um empreendimento, estando a exigir uma atividade de empresário de sua própria obra, como o foram muitos artistas do Renascimento, de Leonardo da Vinci a Michelangelo.
É perfeitamente compreensível que, numa sociedade tecnológica de massas, o autor fale de sua obra e procure vender seus livros, dentro de estratégias promovidas por profissionais da comunicação. Nada demais nisso. A menos que o autor se esqueça de que seu compromisso é com a literatura e passe a divulgar outra coisa.
            A vocação das letras fica, assim, condicionada às relações custo-benefício e o profissional da escrita adota sua jornada de trabalho com todas as garantias que o mercado de trabalho pode oferecer.
            O truísmo deste raciocínio é capaz de ofender as inteligências aqui presentes, peço escusas. Mas penso que o problema se complica na medida em que é muito difícil obter sucesso no mundo do mercado e, ao mesmo tempo, produzir a alta literatura. Como se manifestou Machado de Assis, em uma crônica escrita em 31 de janeiro de 1897: os direitos da imaginação e da poesia hão de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa.
            Ser lido, consumido, comentado, reconhecido faz parte das fragilidades humanas, tornou-se uma aspiração perfeitamente compreensível, não é mais um tema faustiano. Não é preciso vender a alma ao diabo por constar na lista dos best sellers. Aliás, é justamente nesta categoria que se reconhecem os “grandes escritores” nas sociedades de consumo, embora best seller não seja uma categoria literária mas mercadológica.
            A existência desta figura moderna – o escritor-profissional – data de uns 200 anos, é contemporânea do capitalismo de mercado, da sociedade de consumo. Começa com a sociedade industrial inglesa e se espalha pelo mundo a fora, criadora do romance-romântico, do romance de folhetim. Todos nós conhecemos esta história de um romance publicado em parcimoniosos capítulos, nos jornais, de modo que não vale a pena insistir nela,  trata-se apenas para datar o período romântico como origem desta nova ordem, quando a figura clássica do mecenas se retira do cenário para introduzir-se o preço de capa, o pago pelo trabalho do escritor, numa transação mercantil. É neste período, justamente, que emerge o jovem escritor Teixeira e Souza que aprendeu a escrever dentro do dispositivo romântico, como autodidata, à semelhança do fenômeno Machado de Assis, este, sim, um verdadeiro gênio da raça.
            Por outro lado, os gênios da literatura, como Dante, Shakespeare, Goethe, ou Machado de Assis, ou Fernando Pessoa são reconhecidos por outros conceitos, o primeiro deles figura como uma interessante contradição: estes ilustres senhores são ilegíveis para a maioria dos leitores modernos, isto é, escreveram para não serem lidos pelo chamado grande público e, por isso mesmo, são fundamentais. O interesse cognitivo do público é precário, imediato, sem profundidade, mas é com ele que temos de nos haver numa sociedade como a que vivemos.
            Explico melhor: a disposição e o talento de que são dotados leva-os a contrariar o senso-comum, o mundo familiar, aquilo que se toma como óbvio. Eles levam a extremos, às vezes insuportáveis, a capacidade de desestabilizar as verdades confortáveis. Platão já sabia disto e andou proibindo a entrada do poeta lírico em sua República para não correr riscos de corrupção dos costumes. Sabe como é: seguro morreu de velho, sobretudo nas relações de poder nas quais o simbólico é tudo.
            Aliás, se o mundo fosse claro, ninguém precisava de literatura ou de qualquer tipo de arte, bastava o olhar e alguma paciente experiência.
            Questionar os fundamentos da condição humana nunca foi uma tarefa isenta de riscos. Escritores capazes de profetizar, de antecipar-se a seu tempo e negar as crenças e valores circundantes, pode ser uma grave doença que provoca mal-estar. O preço é sempre muito alto, da loucura do suicídio às fogueiras da inquisição, como estamos cansados de saber.
            Ora, acontece que fomos convencidos de que literatura é isto que os gênios fazem. Mais ainda: se estes seres extraordinários cessassem de existir, por uma geração apenas, o resto seria silêncio, como escreveu um grande bardo, talvez o maior de todos. E a civilização da letra e do livro, única aliás que nós, ocidentais, construímos integralmente, estaria em sérios apuros, pois ainda não se descobriu instrumento mais eficaz do que a letra para oferecer condições de pensamento e transmissão de saber.
            Evidentemente, rezamos todos os dias para que isto não seja apenas um exercício do absurdo, que a literatura, a grande literatura, sobreviva e continue reafirmando a excelência da espécie, apesar de circunscrita a poucos. Afinal, não conseguimos entender porque o criador restringiu a inteligência e liberou a estupidez sem estabelecer uma taxa de tolerância entre uma coisa e outra!
            Obedientes, porém, aos ditames do mercado, os editores já sabem que estes gênios não são lucrativos. O ledor médio, acomodado em sua bem-aventurança pequeno burguesa, não quer ser incomodado com reflexões perturbadoras, então o ciclo pouco virtuoso se fecha e o gênio é condenado ao silêncio e a solidão, como Fernando Pessoa, por exemplo.
            George Steiner gosta de chamar toda esta injunção de barbárie da ignorância.
            É de John Donne, fecundo poeta pós-elizabetano, a graciosa reflexão: O por quê? É um execrável e ímpio interrogante: exaspera a Deus e nos arruína.
            Vamos adiante.
            Sempre me pareceu prudente supor que as duas categorias críticas aqui mencionadas não são estanques, elas se movem. A razão centrada num sujeito imperial e a razão empobrecida no mundo dos objetos já não se bastam e muito menos se excluem. Há um trânsito desejável entre elas de modo que é possível a um escritor talentoso transitar como um escritor genial. Temos vários exemplos para comprovar, desde Homero até Umberto Eco. Acresce ainda que estou usando uma terminologia, gênio, desconhecida antes do século XVI. As sociedades antigas desconheciam este predicado. Parece que o termo gênio, festejado no romantismo, refere-se a uma singularidade irrepetível, cujo cérebro dispõe de competências únicas. O problema é que o reconhecimento desta genialidade depende do produto resultante, da eficiência deste produto, caso contrário a classificação resvala na loucura, excentricidade, etc.
            Então é importante perceber que nosso Teixeira e Souza, de origem humílima, vivendo como um homem livre na ordem escravocrata, escreveu um livro e publicou-o em 1843. A história o consagrou como criador do primeiro romance brasileiro, permitiu-lhe um lugar, coisa que a sociedade de seu tempo afinal lhe concedeu-- Deus sabe como. Mas ele queria, sobretudo, ser compreendido, ser aceito, como escritor, mesmo que isto fosse um desaforo, e era, sem dúvida, daí seu seu caiporismo, sua permanente necessidade de agradar os de cima, seus modos melancólicos.
             Ora, senhoras e senhores, este negro tinha uma sensibilidade artística fora do comum e a vida a ele destinada era, por vezes, insuportável.
            Com  astúcia do acaso, o cabo-friense exilado na Corte Imperial, consumindo um bem cultural estranho a sua origem, abriu o caminho mestiço para as virtudes literárias, isto é, para a ascensão social pela rota da literatura.
            Não se pode confiná-lo à categoria dos gênios, mas pode-se avaliar o domínio do dispositivo romântico de que dispunha; como ele construiu sua ficção, manejou as figuras narrativas, engendrou as peripécias, dentro, rigorosamente, do modelo que aprendeu, o folhetim. Claro, não fez como Machado que, disciplinadamente, a cada dois anos, de 1872 até 1878, devastou aquele dispositivo, esgotando-o até o limite do suportável para, em seguida, desfilar triunfante seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881. Mas isto é outra história.
            Aqui, não é possível recitar os capítulos da história universal da infâmia, na qual  o preço a pagar pela ousadia do mulatinho pobre de Cabo Frio quase sempre não se mostra, nem as fontes foram preservadas o suficiente para sabermos como Teixeira e Souza foi capaz de construir sua competência dentro do dispositivo romântico. Certamente, não foi na chave da desconstrução, mas certamente foi na reprodução fiel do gosto que o ledor nascente, na cidade do Rio de Janeiro, esperava e que ele, de todo modo, contemplou ou tentou contemplar.
            É este aspecto que tem fundamentado boa parte da crítica mais generosa ao criador de O filho do pescador.
            A pergunta que se impõe é se vale a pena confrontar a suposta baixa qualidade de seu texto. Confrontada com quem? Com o insuperável Machado de Assis ou com os doutores bem postados na vida de proprietários, proprietários de bens culturais da classe média ilustrada a que pertenciam, como Joaquim Manuel de Macedo?
            Podemos estar empobrecendo o debate argumentando que Teixeira e Souza produziu uma literatura menor e ignorando, neste caso, que a primeira característica deste tipo de literatura é que a língua aí é modificada por um forte coeficiente de desterritorialização, de deslocamento, para usar uma categoria de Deleuze.
            Vivemos, hoje, a idade hermenêutica da razão e toda boa crítica deve começar duvidando de seus instrumentos.
            Literatura menor, escrita em uma língua de empréstimo, o português dos colonizados, é a representação da impossibilidade de não escrever, porque a consciência nacional, incerta ou oprimida, passa necessariamente pela literatura. E o que é o romantismo senão um esforço coletivo em busca na identidade nacional, numa língua brasileira, esforçando-se por encontrar seus próprios padrões? Não nos empenhávamos no nacionalismo da geração de 1830? E não foi nosso Teixeira e Souza, estreando em 1831, irremediavelmente influenciado por este protonacionalismo?
            As estruturas utilizadas por ele em seus romances demonstram sua preocupação com a legibilidade exigida pelo ledor romântico. As fragilidades existentes, do ponto de vista técnico, funcionam, para um leitor atual, como a má-fé, mas não valem como tal
Teixeira e Souza  era, sobretudo, um sobrevivente que fez das letras sua tábua de salvação para tentar ser aceito na sociedade dos homens livres. Tarefa impiedosa, sobretudo porque ele trazia as marcas da escravidão, na cor de sua pele.
            George Steiner, aqui já citado, publicou um livro a pouco tempo, chamado extraterritorialidade onde demonstra o esforço de o escritor escrever com uma língua que não é exatamente materna. Estou considerando, também, o caráter dialetal da Língua Portuguesa, falada em diferentes estamentos sociais, especialmente naquela época, de modo que a língua literária se transforma, para quem a toma de empréstimo, numa língua menor. Do mesmo modo que o alemão de Praga foi apropriado por Kafka para fazer a melhor literatura e não o tcheco, sua língua materna.
            Penso no esforço necessário para que um falante, da sociedade dos excluídos, vivendo dos restos dos bem situados, tivesse também de, com os restos de uma língua, construir uma literatura, ou os restos de uma.
            Ora, toda literatura é uma construção linguística. De alguma maneira, o escritor dela se apropria para expressar sua mimesis. É um esforço dramático, sobretudo se ele é um exilado, ou emigrado, alguém cuja língua literária teve de ser apropriada como um bem cultural da classe dominante, dependendo da boa vontade e da generosidade de algum professor improvisado. Estas formas de apadrinhamento afetivo têm enorme significado na formação de intelectuais de origem negra. Os clássicos estudos de Gilberto Freire podem iluminar esta questão, desvendando a força dos laços afetivos superando diferenças sociais que, em outras latitudes, seriam intransponíveis. Com Teixeira e Souza aconteceu exatamente isto.
            Pois não foi este o destino comum de três mulatos talentosos: Teixeira e Souza, Machado de Assis e Lima Barreto, e seus magníficos autodidatismos?
            No caso de Machado, abro parênteses para declarar que sua presença literária é, para mim, a prova cabal da existência de Deus, embora, pessoalmente, acho que ele evitaria a comparação, revidando educadamente com sua costumeira ironia sutil esta minha evidente hipérbole sincera, dizendo,como disse: mas a hipérbole é deste mundo e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só à força de muita retórica se pode meter por elas um sopro de verdade.
            Confesso que me sentiria uma vítima feliz.
            Em que pese a todas estas circunstâncias, o breve debate aqui empreendido é uma oportunidade para repensar a obra de Teixeira e Souza para além do bem e do mal.             Nossa sociedade vem, nos últimos tempos, derrubando preconceitos antes irremovíveis. As muralhas de Jericó da intolerância, da violência, do desamor, do desprezo ao outro se esboroam com os cantos de louvor da inteligência, com as trombetas da razão frágil que inclui o outro, em sua radicalidade evangélica .Afinal, como diria Emanuel Lévinas, o outro é o osso duro de roer, lá onde a razão perde os dentes.
            Precisamos de muitas trombetas, e elas soarão em nome da civilização.
            Quem sabe não nos aproximamos de uma nova abordagem da própria História da Literatura Brasileira, que possa colocar Teixeira e Souza em seu devido lugar? Há, em nosso meio, personalidades e autoridades relevantes, ilustres, capazes de empreender esta tarefa. Nós, intelectuais e escritores, temos absoluta e irrestrita confiança nestes Mestres e aguardamos, ansiosos, suas lições.
            Particularmente, sinto-me seguro com os caminhos que muitos de meus colegas, professores de literatura, me indicarem.
            Lá, na nossa mui amável Cabo Frio, o poder público se esforça por estimular estudos da vida e obra do homenageado e, futuramente, trataremos de editar as obras completas, em edição crítica, filologicamente impecável. Será a melhor homenagem que se lhe pode prestar.

                                                                                  Muito Obrigado.
CARLOS SEPULVEDA
            O presente texto foi pronunciado, como conferência, na Assembleia Legislativa, em comemoração ao bicentenário de Teixeira e Souza. A iniciativa foi do deputado Jânio Mendes, a quem agradeço o convite e a honra.

sexta-feira, 23 de março de 2012



 
CONSUMMATUM EST

Eis o homem pregado na cruz.

Ainda não sabe
que a dor sentida
supera a dor pressentida.

É este o momento
do deus-homem – apenas –
homem. Por suprema humildade.

Este homem, cravado em cruz,
já sabe que a dor contida
resume em nossa humanidade
a herança da dor repartida.

O homem condenado na cruz
Redime descuidadas culpas.
E não há cálice que as contenha.
Não há consolo que as mitigue.
Não há calendas com que medi-las.

Um homem na cruz, pregado,
tomba seu rosto de lado
em sangue ardente banhado.

Para talvez suportar
O pó da humildade
a dor de todos os partos.

No entanto, ele segue sonhando.

Este homem, cuja agonia a todos redime,
em breve despertará, naquela tarde patética.
Não há de faltar ciência:
Conhecerá a dor e a Verdade.

Todavia
seguirá sonhando
com outra humanidade.

Três horas. A tarde arde.
Ele vira o rosto de lado.
Já não sente dor, mas vergonha.
Já não sabe se vale a pena
sonhar com outra humanidade... 
Carlos Sepúlveda

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


DOS LIVROS INÚTEIS

            Se não me engano (estou com preguiça de me levantar daqui para uma consulta), foi Plínio, o Jovem, que disse não haver livro tão ruim que não encerre algo de bom.
            A sentença, plena de uma tolerância quase evangélica, justifica e absolve os autores que se precipitam em brindar, com letras de forma, algo parecido com um livro. Há em nós uma vontade imperiosa de publicar um livro, pelo menos uma vez na vida. Acho que é para validar aquele conhecido exercício existencial: um filho, uma árvore, um livro.
            Claro, o fato de publicar um livro não torna ninguém um escritor, para isto é preciso muito mais do que um livro ou um blog, é preciso um compromisso de vida, uma dedicação muitas vezes suicida, para se dizer escritor ou, mais grave ainda, um poeta.
            No entanto, gosto do julgamento de um mestre da antiguidade romana. Aceito que todo livro, não importa qual, é sempre fruto de um paciente tecer e destecer de linhas, palavras, silêncios que, se não expressam verdades profundas e nem mudam o modo de pensar da humanidade, ao menos revelam uma alma generosa que não hesitou em dividir com os leitores o pão de sua intimidade.
            Muitas vezes, um livro despretensioso, quase secreto, que se escondeu nos desvãos de alguma biblioteca, por séculos, de repente é encontrado, lido e relido, para se tornar o prenúncio de verdades só agora vividas.
            Isto não aconteceu ocasionalmente, antes, aconteceu muitas vezes. Quem não se lembra do pedido de Kafka na hora da morte? Pediu ao amigo e também escritor, Max Brod, que lhe queimassem todos os manuscritos porque não valiam a pena. Ora, o generoso amigo não só ignorou a ordem como os fez publicar. Hoje, Kafka é uma passagem obrigatória a todos os que pretendem entender o lado demente de nossa modernidade.
            Portanto, escrevam e, se possível, publiquem. A gente nunca sabe o gênio que se esconde no fundo de nossa alma.
Carlos Sepúlveda

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012



EUCARISTIA

A sombra da tarde nos constrange.
Há silêncio em cada esquina
nesta cidade imensa.
O vento mexe nas cortinas brancas
na janela aberta sobre a tarde fria.

Na mesa – o pão, o vinho, um livro aberto.
A toalha engomada engendra virtudes
como se ali pecado não houvesse.

No meio da tarde equivocada
um velho colhe flores esquecidas
no jardim defronte à lua,
para com elas enfeitar aquele altar.

Um homem solitário comunga,
como se ali restasse a última centelha
desta coisa inexplicável a que chamam vida.

Carlos Sepúlveda

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


TEIXEIRA E SOUZA: 200 ANOS


            Em março próximo, comemora-se o bicentenário do escritor cabo-friense Antonio Gonçalves Teixeira e Souza. Para quem não se lembra, o ilustre escritor publicou, em 1843, o romance  O filho do pescador, inaugurando o gênero em nossa história. Sua vida vale uma novela.
            Nascido mestiço de pai português e mãe negra, no ano de 1812, viveu 49 anos, a maioria deles no Rio de Janeiro onde fez de tudo um pouco para produzir 10 livros, 4 de poesias e 6 romances, sob o apoio de Paula Brito, notável mecenas.
A crítica não tem sido generosa com ele, o mínimo que se escreveu é que houve, por parte de alguns de seus pares,  uma tolerante simpatia em face de seu esforço e seus modos melancólicos.
As avaliações sobre seu estilo e seu modo folhetionesco de narrar uma história são impiedosas, sobretudo quando comparadas com os textos de Joaquim Manuel de Macedo, autor de A moreninha,  publicado um ano depois. Teixeira e Souza foi um negro pobre que aprendeu praticamente sozinho a dominar o francês e sua própria língua, à semelhança do genial Machado de Assis que, aliás, fez-lhe elogiosas referências em texto conhecido.
Não se tem avaliado suficientemente o fato de ter sido ser ele um intruso na festa dos intelectuais bem postos na sociedade de seu tempo. Sem o gênio de Machado, Teixeira e Souza dependeu de muito trabalho para produzir seus livros que, se não são bons, são um desaforo e uma ousadia. Afinal, o que um negro pobre faz no mundo da literatura romântica? Num mundo privativo dos poderosos?
Morreu aos 49 anos, de tuberculose, no ano de 1861, quando começava, timidamente, a mais competente literatura escrita neste país, os contos de Machado de Assis.
Contudo, por seu pioneirismo e  seu nome circulam,  por todas as universidades e bibliotecas que disponham de um departamento de literatura brasileira. Consta como o iniciador do romance no Brasil.
O bicentenário,  que as autoridades culturais de Cabo Frio não serão capazes de comemorar como ele mereceria, será provavelmente celebrado com a pobreza e mediocridade de uma prefeitura anódina, mesquinha e burra.
É uma pena.
Carlos Sepúlveda

sábado, 28 de janeiro de 2012


E POR FALAR EM SAUDADE!

            É uma palavrinha que nos enche de vaidade. Os brasileiros adoram dizer que só em nossa língua é possível dizer SAUDADE.
            Pode ser, afinal, brasileiro que se preza é especialista em tudo, por que não em filologia? Nem só de futebol vive o homem!
            Mas não se pode esquecer de que palavras expressam sentimentos, alma, verdades profundas da mente, por isso, dá vontade de escrever poeticamente.
            Então, vamos falar de saudade.
            É verdade, nossa língua, que segundo Manuel Bandeira não morrerá sem poetas nem soldados, dispõe desta expressão delicada como nenhuma outra. Aliás, no nosso português brasileiro, se diz SAU-DA-DE, assim mesmo, com três sílabas. Na língua de nosso avozinho – Portugal—se diz SA-U-DA-DE, com o hiato, ficando com quatro sílabas. Confesso que gosto mais do jeito lusitano, porque alonga a palavra, dando a sensação de lonjura, de distância, do mar de longo, como escreveu Caminha na sua carta. E saudade tem tudo a ver com mar, com viagem.
            Mas, como apareceu o sentimento que ela expressa?
            Foi lá com os gregos, depois da guerra de Tróia, a única Guerra do mundo por causa de um adultério. Você sabe, não é,leitor: aquela história de Helena que fugiu com um jovem muito bonito, chamado Paris, etc...Pra mim, faltou senso de humor, mas, de qualquer modo, deu na Ilíada, um poema fundamental de Homero. Quem podia imaginar que uma recatada senhora pulo o muro e vira personagem de uma civilização inteira!!!
            Pois é, tudo conversa. A guerra teve motivações mais profundas.
            Acontece, porém que, terminado o conflito de mais de dez anos, os vencedores, os gregos, tiveram de voltar para casa. Voltar, depois de tanto tempo, significou reencontrar o lar, os filhos, a pátria com outra cara, ou com outros caras. Ninguém é de ferro, só Penélope, por isso foram histórias marcantes. Um desses heróis, por exemplo, só voltou depois de vagar mais de dez anos no mar. Repare como os gregos gostavam do número dez!
            Ulisses, ou Odisseus, sofreu um bocado para retornar para os braços de sua Penélope, sua rainha amada.
            Bem, todas essas histórias se chamavam nostoi e relatavam as emoções e os sofrimentos do longo retorno. Como sofrimento e dor se exprimem na palavra algia, apareceu a palavra nostalgia que significa “melancolia produzida no exilado com saudades da pátria”( ta lá no Aurélio)
            Taí a origem da saudade: um sentimento de falta, de ausência, misturado com uma sensação de impotência para enfrentar os desafios, os obstáculos que impedem a volta.
            Em quase todas as línguas ocidentais, saudade está ligada a este sentimento de perda, de angústia, mas na nossa é mais profundo, porque podemos ter saudade até do que nunca vivemos, podemos ter saudade do futuro.
            É tão belo e profundo que não me furto a copiar algumas belíssimas definições para meus 12 ou 13 leitores terem o que fazer neste sábado.
            De Guimarães Rosa:
·        Moço, toda saudade é uma espécie de velhice
·        A saudade é um sonho insone
·        A saudade é o coração dando sombra
·        Saudade – um fogo enorme, um monte de gelo
·        Saudade – cofrinho sem chave.
·        Saudade é ser, depois de ter

            Do grande poeta português, Fernando Pessoa:
·        Todo cais é uma saudade de pedra

            Do orgulho de minha geração, minha favorita. De Chico Buarque de Holanda:
·        A saudade é o revés do parto/Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.

            E para homenagear o rude realismo de nosso povo, aqui vai a definição mais popular:
·        Saudade é coisa que dá e passa.

            E vocês, meus desocupados leitores, têm saudade de quê ou de quem?
Carlos Sepúlveda